domingo, 14 de março de 2010

Cada som como um grito

Muitas vezes tenho uma sensação de "hoje sou esta música", e faço dessa música a banda sonora de um dia. Mas hoje, uma música não chega, hoje sou um álbum. E um dia também não chega para este "hoje" a que me refiro, pois este hoje são muitos dias de hoje, ontem e amanhã.


Para o "hoje" alargado em que tenho vivdo, esta é a minha letra:


I - LETREIRO



Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


II - PRELÚDIO



Reteso as cordas desta velha lira
Tonta viola que de mão em mão
Se afina e desafina.
E de onde ninguém tira
Senão acordes de inquietação

Chegou a minha vez e não hesito
Quero ao menos falhar em tom agudo
Cada som como um grito
Que no seu desespero diga tudo
E arrepelo a cítara divina
Agora ou nunca meu refrão antigo
O destino destina mas o resto é comigo


III - RELÂMPAGO



Rasguei-me como um raio rasga o céu
Iluminei-me todo de repente
Negrura permanente
De noite enfeitiçada
Quis ver-me com pupilas de vidente
E arrombei os portões à madrugada
Mas nada vi
Caverna de pavores
Só com tempo e vagar eu poderia encarar
Castigar e perdoar
Tanta abominação que em mim havia


IV - ORFEU REBELDE



Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz, assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo de um poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.








**************************
A Arte

Álbum Cada Som como um Grito, dos Orfeu Rebelde, com poemas de Miguel Torga. Aproveito e lanço o apelo: façam como eu, VÃO À FNAC E COMPREM O ÁLBUM. Nem chega a 5€ e é das coisas mais geniais que se fizeram neste país nos últimos tempos!

Imagens, por ordem de aparecimento:
The Morrigan, deusa celta da guerra, morte e transformação, por Jessica Galbreth;
Violin Herido, de Victoria Francés;
Under Black Wings, de paradox828;
Libera me, de Victoria Francés