segunda-feira, 27 de junho de 2011

Uma caixa aberta - Parte I: O Jardim das Delícias

A raiva apoderou-se de mim e, num acto de desespero irracional, tentei forçar a fechadura. Magoei-me. Fui buscar a chave, e o cadeado cedeu gentilmente. É interessante como a fúria tem tanto a dever à inteligência e à delicadeza, e como nós, mortais, as continuamos a subestimar tanto e a ceder ao instinto da fúria. Mas a caixa abriu - demasiado naturalmente, até -, e eu, que toda a vida estivera lá dentro, pude sair com a maior das facilidades.




E foi então que eu vi o Mundo e me deslumbrei. O Mundo tinha tudo o que eu nunca tinha visto na disciplina da minha caixa. Havia vida e havia tudo aquilo de que a vida precisa; havia música, dança, arte; havia livros e conhecimento infinito, havia todo o saber numa mão; havia diversão, adrenalina, emoção; havia independência, privacidade, e uma desejada solidão; havia chocolate, mel, preguiça, ócio; havia beleza e muitos espelhos; havia homens, mulheres... Havia sensualidade, toque, cheiro, pele, cabelos, lábios, beijos, álcool; havia amor e havia sexo!
Não havia tempo para escolher por onde começar, e era tarde - muito tarde. Só eu sei como precisava urgentemente de tudo aquilo que via desenrolar-se à minha frente; além disso, qual seria a necessidade de fazer escolhas, quando podia pegar em tudo aquilo que estava à minha disposição de uma só vez? Então, sem mais demoras, tudo isto eu bebi de um trago só, como se tentasse fazer caber nesse momento todos os anos do meu passado em que eu não tinha vivido - pois na caixa não se vivia. De um só trago bebi, e de um só trago me embriaguei, e não podia estar mais feliz. Bebi de tudo mais uma vez. E outra. E mais outra. E eu voava.

Ousei experimentar a vida
Ousei ser livre
Ousei amar
Ousei amar-me
Ousei chorar
Ousei ter voz
Ousei gritar
Ousei ser bela
Ousei conquistar
Ousei ceder ao prazer... Eternamente. Pois não mais me consegui soltar dele.

Desfiz-me de relógios e calendários, e assim o tempo deixou de existir para mim. Não havia horas, nem noites, nem dias, nem inverno, nem verão. Agora eu podia voar sobre os prazeres do meu Jardim das Delícias, durante todo o tempo que me apetecesse.




E, aos poucos, a sobriedade foi despertando em mim, e eu caí no chão. A queda foi grande, mas, felizmente, os restos de embriaguez que o meu corpo ainda continha pouparam-me a uma dor mais forte do que aquela que senti. Toda esta experiência tinha sido perfeita e lembrei-me de que, agora que a caixa estava aberta, poderia voltar lá dentro para a rotina e o trabalho sabendo que, sempre que quisesse, teria o Jardim das Delícias à minha disposição.
Já mais calma e consciente, olhei para o Mundo, para o meu Jardim das Delícias, e vi algo que até então me tinha escapado à vista. O Mundo era um labirinto mas, na perspectiva do meu alto vôo sobre ele, eu não me apercebera de que existiam paredes; e agora, eu tinha caído algures no meio desse labirinto, e não sabia por onde deveria seguir. Sem outra solução à vista, fui errando por caminhos aleatórios, perdida para sempre, sem a mínima noção de quanto tempo passara desde que saíra da minha caixa. Foram anos, talvez...

O pânico apoderou-se de mim. Sabia que, perdida neste Mundo, nunca mais poderia voltar à minha caixa, não poderia mais trabalhar, ser competente, responsável e perfeccionista, como sempre me conhecera. No entanto, consolou-me a ideia de estar perdida no sítio mais agradável que eu poderia imaginar. Poderia existir prisão mais perfeita do que a liberdade? Não, claro que não. Então, para quê lamentar-me, quando podia possuir e experimentar tudo quanto a minha ânsia de vida desejasse? "Procurarei a saída de novo, amanhã", disse para comigo. E cedi aos prazeres mais uma vez.






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A arte:
Imagem 1 - The Secret Doorway, by Selina Fenech
Imagem 2 - Jardim das Delícias (painel central), by Hieronymus Bosch. Uma das obras que mais me impressionou no Museu do Prado, em Madrid.