sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Dois anos de dança




Faz este mês dois anos que me iniciei na Dança Oriental. Tem sido um longo percurso de aprendizagem e descoberta, e quanto mais conheço esta arte ancestral mais sinto que me falta aprender e aperfeiçoar. É uma estrada interminável esta, e é preciso encarar a caminhada com humildade, com noção não só daquilo que já alcançámos mas também das nossas dificuldades. Cada novo movimento conhecido é um desafio, cada novo movimento dominado, uma conquista.

É um caminho de descoberta não só de uma arte e de uma cultura diferentes, mas também de nós mesmas, uma descoberta do nosso corpo, da nossa feminilidade, da nossa magia natural.






As mestres


Gostaria agora de partilhar uma mensagem sentida que deixei à pessoa com quem dei os primeiros passos:

«This month I "celebrate" two years since my first belly dance class. My first teacher was Kahina Spirit.
It was my very first contact with this art and I'm very glad I was introduced to it by this inspiring, passionate and beautiful woman. She accompanied my very first steps, she taught me to dance, she introduced me to oriental culture, she always encouraged me to continue, gave me advice, corrected my mistakes, and most of all, she always inspired me. Sometimes it was even hard to focus on the classes, with such a gracious person dancing in front of me, I must say! She is almost etheral.
Unfortunately, after about a year, she had to leave my town for logistical reasons, and I have not seen her since. I kept dancing, I found another teacher and another belly dance group (wich I truly love with all my heart) and continued my way, and I've learned and grown so much with them... But I could never forget my first teacher and muse, for she gave me the wings I'm learning to use now, and I'm really grateful to have met her.

Thank you so much for everything you taught me, and for all the knowledge and inspiration you gave me, Kahina. I will never forget that. And I miss you. :) I wish all the best for you, and all the best for your artistic projects. You are great and you deserve everything!

And this is my humble homage for you. :)
Beijinho*»


No ano que se seguiu, continuei a minha caminhada com uma bailarina igualmente fantástica e inspiradora, Susana Amira, com quem tenho aprendido milhões e consolidado os meus conhecimentos já adquiridos. Tem sido uma aprendizagem estonteante, cada aula a absorver mais um pouquinho do seu conhecimento, experiência, criatividade e energia intermináveis. A Susana é uma verdadeira mestre, transborda experiência e alegria e conquista-nos com o seu sorriso de princesa. Neste momento, não consigo imaginar os meus passos na dança sem ela. :)
Estas aulas têm sido uma experiência riquíssima e igualmente inspiradora. É muito enriquecedor conhecer uma arte através da visão pessoas diferentes, pois isso naturalmente dá-nos a conhecer abordagens e estilos igualmente diferentes, e nesse aspecto, foi muito interessante a transferência para outra professora. É também essa a importância da frequência de workshops com vários mestres - algo que pretendo vir a concretizar futuramente, como complemento à minha aprendizagem nas aulas regulares.






Três manifestações mágicas da dança


Da experiência que tenho tido, a meu ver, existem três contextos de manifestação da dança bastante diferentes entre si, e cada um mágico à sua maneira.


O primeiro contexto de que vou falar, é talvez o mais frenético e arriscado, mas também o mais cintilante. Trata-se do espectáculo! A dança de nós para alguém, a arte para um público. Os preparativos, começam muito antes: Aprendemos a fazer de raíz os nossos próprios fatos, a maquilharmo-nos e a criar uma personagem, para que a magia aconteça. É então que surge um turbilhão de emoções: A partilha do palco com outras bailarinas, as borboletas na barriga, a confusão e entreajuda nos camarins e bastidores, as purpurinas, as cores, a fantasia, os aplausos... Em suma, um mundo mágico que nos vicia e apaixona.
O palco é o culminar de tudo, e é local onde me sinto a voar enquanto bailarina, o local onde a noção de tempo/espaço toma proporções muito próprias, devido a todo o êxtase que me invade.


O segundo, trata-se da dança entre mulheres, a dança entre nós, a existência de um grupo - grupo este que se torna quase uma família. As minhas irmãs habibis, as Raqs Amira, são as mulheres com quem partilho as minhas experiências na dança, desde a aprendizagem nas aulas até ao êxtase do palco; o cansaço e a euforia. É com elas que eu cresço, é em elas que vejo um reflexo de mim mesma; em conjunto, criamos algo uno, somos nós todas e uma alma só.
Não importa quem é mais ou menos elegante, quem dança melhor ou pior. A dança entre mulheres é uma dança entre deusas. E dançar com estas mulheres é das maiores honras que tenho nos meus dias.


Partindo do mais expositório para o mais íntimo, eis o último contexto em que danço: a dança de mim para mim. A libertação total. O improviso num quarto fechado, a luz média ou apagada, a música a vibrar em todo o corpo, os reflexos num espelho, as emoções a fluírem, os aromas do incenso, e até por vezes a nudez. E o corpo gira e gira em torno de si mesmo, e começo uma viagem até dentro de mim. É algo que não planeio, simplesmente acontece. Algo que me ajuda a libertar-me de tudo, a explorar, e a praticar também.







Espero poder continuar esta caminhada ao longo de muitos mais anos, com a inspiração e o apoio tanto de quem me guia como de quem caminha ao meu lado… Porque a vida sem shimmie não seria a mesma coisa. :) A todas as mulheres com quem me tenho cruzado nesta estrada, desde o primeiro dia até agora, um grande abraço!

Yalla!




*****Créditos*******

Música: Masala - Music and Spirit

As mestres são:
Kahina Spirit - https://www.facebook.com/Kahina.Spirit
Susana Amira - https://www.facebook.com/susana.amira

O nosso grupo de dança oriental, Raqs Amira - https://www.facebook.com/raqsamira

Imagem 1: Raqs Sharqi Goddess, por Emily Balivet
Imagem 2: Autor desconhecido (se conhecerem, agradeço informações)
Imagem 3: Fotografia minha

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Tudo o que restou

«Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
- Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...»



Tudo o que restou...




...Fui eu.


Depois de todos aqueles que passaram por mim, depois de tudo o que vem e vai, no final do dia é isto que resta: eu, dentro destas 4 paredes, sem saber muito bem com que propósito continuar, ou a que me agarrar, mas sabendo que, em última análise, só dependo do que eu conseguir fazer de mim.

E seu eu não conseguir nada?



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Soneto: Perdi os Meus Fantásticos Castelos, de Florbela Espanca.
Fotografia: Diana Rosa